DeFi

Aave emprestou US$ 44,6 milhões à carteira do invasor da Binance e liquidou parte da garantia nesta quarta

Às 11h49 desta quarta-feira, uma transação liquidou parte de um empréstimo aberto na Aave há seis dias com dinheiro saído da Binance. O empréstimo era de 19.762 WETH, a versão tokenizada do ether, tomados por uma carteira ligada ao invasor contra 60 milhões de USDT que essa carteira depositou na noite de 29 de outubro. A liquidação quitou 9.878 WETH da dívida, perto de US$ 23,4 milhões pelo preço do momento, e entregou 24,4 milhões de USDT da garantia a quem pagou a conta.

Os depósitos foram feitos entre 20h57 e 21h01 do horário universal, o mesmo intervalo entre 17h57 e 18h01 de Brasília, cerca de 40 minutos antes de a Aave bloquear os mercados. Foram 10 milhões de USDT em uma operação e 50 milhões em outra. A dívida em WETH saiu em duas levas, de 3.271 e de 16.491. Na conta da LlamaRisk, que presta serviço de risco ao protocolo, a garantia valia US$ 59,9 milhões contra US$ 43,8 milhões de dívida, e os depositantes não corriam risco.

Nenhum contrato da Aave foi invadido. O dinheiro roubado entrou como garantia de um empréstimo comum, nas mesmas regras que valem para qualquer carteira, e saiu em ether.

Congelamento de 292 mercados em uma noite

A primeira trava veio às 18h42 de Brasília. Os guardiões do protocolo congelaram 175 reservas da versão 3, espalhadas por 16 redes, e 117 da versão 4, em quatro redes. Cada reserva é o mercado de um ativo dentro do protocolo. Congelar barra depósito novo e empréstimo novo. Saque, pagamento de dívida e liquidação continuaram liberados.

O efeito apareceu em poucas horas. Sem depósito novo para repor o caixa, os saques dos grandes fornecedores esvaziaram a liquidez disponível nas maiores reservas de stablecoin, que chegaram a 92% e a 100% de utilização, quando quase todo o dinheiro depositado já estava emprestado. Os juros cobrados de quem devia subiram para uma faixa de 10% a 36% ao ano, com picos de 55% em algumas reservas.

Para quem tinha empréstimo aberto, o congelamento fechou a saída mais óbvia. Não dava para depositar mais garantia em uma reserva bloqueada. Restava pagar a dívida e ver o juro consumir a margem. Nas horas seguintes, os administradores de risco cortaram a parte final das curvas de juros, para que nenhuma taxa passasse de 10% ao ano com a reserva totalmente utilizada. A medida vale só enquanto durar a emergência.

O descongelamento começou cerca de 16 horas depois, em quatro etapas. Nove ativos, entre eles USDT, USDC, OP e PAXG, ficaram com poder de garantia zerado em todas as redes onde estão listados, porque estavam nas carteiras do invasor. Os limites de empréstimo foram reduzidos em cerca de US$ 3,7 bilhões na versão 3 e US$ 130 milhões na versão 4, para que uma única carteira não abrisse posição grande nos primeiros blocos depois da reabertura.

Por que a liquidação saiu nesta quarta

A posição carregava uma assimetria simples. A dívida era em ether e a garantia, em dólar. Quando o ether sobe, a dívida medida em dólar sobe junto, e a garantia continua no mesmo lugar. Com o ether a US$ 2,37 mil no meio da tarde, a conta passou do limite e a liquidação entrou.

Liquidar não devolve o dinheiro a ninguém. O liquidante paga a dívida e fica com a garantia, com um bônus. Nesta quarta, saíram 24,4 milhões de USDT de garantia para abater US$ 23,4 milhões de dívida. A diferença, perto de US$ 1 milhão, cobre o bônus do liquidante e a taxa que a Aave recolhe para o próprio caixa em toda liquidação, de US$ 105 mil neste caso.

Sobraram 9.884 WETH de dívida, perto de US$ 23,7 milhões, contra 35,5 milhões de USDT de garantia. A posição voltou a ficar fora da zona de liquidação, e a próxima só acontece se o ether subir para perto de US$ 2,8 mil.

Stablecoins já caíam antes do roubo

O total em stablecoins, medido pela DeFiLlama, somava US$ 296,2 bilhões nesta quarta, US$ 11,4 bilhões a menos que 30 dias antes. O recuo não começou com o ataque. Entre 5 de outubro e 27 de outubro, o total já tinha caído de US$ 307,6 bilhões para US$ 302,1 bilhões. A série diária fecha às 0h UTC, e a leitura de 29 de outubro, feita 20 horas antes do esvaziamento das carteiras da Binance, marcava US$ 300,7 bilhões.

O valor depositado nos protocolos também se move com o preço. Na Aave, a série da DeFiLlama marcava US$ 17,4 bilhões em 27 de outubro, US$ 16,0 bilhões em 31 de outubro e US$ 17,2 bilhões nesta quarta. Uma garantia em ether vale menos quando o ether cai, sem que ninguém tenha sacado um dólar. Queda de US$ 1 bilhão registrada no meio do caminho não serve, sozinha, como medida de capital que saiu.

O custo do episódio aparece em outro lugar. Em seis dias, a Aave congelou 292 mercados, empurrou os juros de quem devia para até 36% ao ano em posições que não podiam receber garantia nova e liquidou parte do colateral do próprio invasor. A carteira que transformou 60 milhões de USDT roubados em ether segue com 35,5 milhões de USDT depositados, presos a uma dívida de 9.884 WETH.

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