Segurança

O banco de 3 milhões de clientes fechou, e o Paraguai correu para devolver até US$ 20 mil por pessoa

Na madrugada desta terça-feira, 3 de novembro, os clientes do ueno bank acordaram sem banco. Nada funcionava. O aplicativo não abria, os cartões não passavam, as agências amanheceram fechadas. Na noite anterior, a diretoria do Banco Central do Paraguai havia aprovado por unanimidade o procedimento de resolução da maior instituição digital do país, depois que o índice de solvência do banco caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo de 12% exigido pela norma.

O ueno tinha 3 milhões de clientes, cerca de 60% da população adulta do Paraguai, 68 agências e quase 1,1 milhão de cartões emitidos até setembro, o que fazia dele o maior emissor do país. Tinha US$ 2,6 bilhões em depósitos no fim de março, segundo números do próprio banco, e entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em dinheiro público. Boa parte desse dinheiro é do Instituto de Previdência Social, o fundo estatal de aposentadorias e saúde, que tinha ali cerca de 9% da sua carteira de investimentos.

O que derrubou o banco foram os empréstimos dentro de casa. A fiscalização apontou crédito a empresas ligadas ao grupo controlador, o Grupo Vázquez, sem as garantias usuais. Entre os tomadores estão a MOWI, o Grupo Hendy e o Grupo M, que juntas teriam recebido G. 743,8 bilhões, perto de US$ 123 milhões. As provisões necessárias para cobrir esses créditos passaram de G. 1,6 trilhão, e a solvência, que era de 15% no fim do primeiro trimestre, desabou.

Uma lei em dois dias para os pequenos

A resposta do Congresso levou dois dias. O Senado aprovou na terça, por 35 votos a 1, uma antecipação de até 40 salários mínimos por depositante, uns G. 121,8 milhões, o equivalente a US$ 20,2 mil, a ser paga em 24 horas. A Câmara dos Deputados alterou o texto e estendeu o prazo para até cinco dias úteis. O Senado confirmou as mudanças por unanimidade, e o presidente Santiago Peña promulgou a Lei 7.745 nesta quarta-feira.

Antecipar não muda o tamanho da garantia. A cobertura legal do Fundo de Garantia de Depósitos segue em 75 salários mínimos, G. 228,3 milhões, cerca de US$ 37,9 mil por pessoa, somando todas as contas que ela tenha na mesma instituição. O que a lei fez foi antecipar uma parte desse dinheiro para os pequenos poupadores, com desconto das parcelas vencidas de quem deve ao banco.

Na conta do Banco Central, 97% dos poupadores ficam integralmente cobertos, disse o diretor Marco Aurelio González em entrevista coletiva. Os 3% restantes, empresas e pessoas com saldo acima do teto, entram na fila dos ativos. O primeiro da fila é o Instituto de Previdência Social. Depois vêm os grandes depositantes, entre eles a Conmebol, com G. 85,5 bilhões, perto de US$ 14 milhões, e os donos de um bônus de US$ 350 milhões emitido em março, com vencimento em 2031, que caiu de 99 centavos para 85,71 centavos por dólar antes de a Superintendência de Valores suspender a negociação.

Oito presos e US$ 70 milhões bloqueados

A polícia prendeu oito dirigentes e ex-dirigentes na terça-feira, entre eles o presidente Juan Manuel Gustale e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do banco, vice-presidente e dono do Grupo Vázquez. O Ministério Público imputou 27 pessoas e pediu prisão preventiva para Vázquez, que se apresentou à polícia ainda na terça. A Justiça decretou o embargo de bens das empresas controladoras e dos diretores até cobrir US$ 70 milhões e G. 1,62 trilhão, mais G. 58,6 bilhões para despesas judiciais.

O Banco Central também suspendeu o resgate de fundos de investimento ligados ao banco, à espera de saber quanto valem os ativos. Os 32 mil aposentados que recebiam pelo ueno serão transferidos para outras instituições.

O regulador ficou sem quórum

A crise chegou à cúpula de quem deveria ter fiscalizado o banco. Carlos Carvallo, que dirigiu o ueno até agosto de 2023 e foi nomeado presidente do Banco Central por Peña, entregou o cargo na terça. Carmen Marín havia saído um dia antes. Nesta quarta foi a vez de Marco Aurelio González, o mesmo diretor que anunciara os 97%. Com três cadeiras vazias, o diretório perdeu o quórum e não pode decidir nada até que Peña indique novos nomes, o que tem 30 dias para fazer. Restam Liana Caballero, presidente interina, e Miguel Mora.

O pano de fundo é político. Peña foi sócio do Grupo Vázquez até março de 2025, e a oposição começou a recolher assinaturas para abrir um processo de impeachment. Para o governo, o caso é isolado e o ueno representa 9% do sistema financeiro paraguaio.

O bitcoin que o ueno vendia no aplicativo

Há uma camada própria para quem acompanha cripto. Em setembro, clientes relataram nas redes que o aplicativo do banco passou a mostrar a compra de bitcoin, liberada a um lote inicial restrito, e que a função ia sendo aberta aos poucos. O ueno era a aposta do OTP Bank, um dos maiores grupos bancários da Europa, com sede na Hungria, que pagou US$ 47 milhões por 9,99% da holding em junho e colocou o banco paraguaio no seu mapa de expansão internacional.

A compra de bitcoin no aplicativo parou com todo o resto. Quem tinha saldo no banco entrou na fila do fundo de garantia. Bitcoin na própria carteira não entrou em fila alguma.

O primeiro pagamento anunciado pelo Banco Central foi de até G. 10 milhões, cerca de US$ 1.660, para quem já tem conta em outra instituição. Quem só tinha conta no ueno depende de o regulador abrir a conta em outro banco. A expectativa é que os depósitos comecem na sexta-feira, 6 de novembro, com o restante dentro dos 15 dias que a lei dá para concluir o pagamento.

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