A BlackRock respondeu antes da apuração e mantém a rota depois do resultado
Na terça-feira, no ETF Investor Forum, em Nova York, perguntaram a Robert Mitchnick, chefe de ativos digitais da BlackRock, se a eleição poderia mexer nos lançamentos de produtos e no dinheiro que entra nos fundos. Ele respondeu com uma frase curta. "Na verdade, não, para ser honesto", disse, antes de o resultado ser conhecido.
Dois dias depois, com os democratas donos da Câmara e do Senado, o raciocínio que sustentava essa resposta continua o mesmo, e ele se apoia em dois pontos. Bitcoin e ether já reúnem boa parte da clareza regulatória de que um produto de investimento precisa. E quanto mais gente usa esses ativos, menos o assunto depende de quem está no poder.
O que a BlackRock já tem na prateleira
No fórum, ele citou uma postura mais aberta da SEC no trato com o setor e disse que os dois ativos já têm o necessário para sustentar os fundos que a gestora vende. O iShares Bitcoin Trust, maior fundo de bitcoin à vista do mercado americano, nasceu dentro desse arranjo e não espera uma lei nova para funcionar.
A leitura sobre política veio na sequência. Quanto mais a adoção cresce e mais aparecem usos com valor econômico real, disse, mais o tema deixa de ser bandeira de partido. Para ele, o efeito da eleição fica na margem e o rumo do negócio segue igual.
A lei que ficou parada era para o resto do mercado
O projeto que não andou é outro. A CLARITY Act, que reparte a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC, parou no Senado em uma votação de procedimento em 15 de setembro, com 49 votos a favor e 50 contra, onze abaixo do mínimo necessário. A Câmara havia aprovado o texto antes, em julho de 2025, com 294 votos favoráveis e 134 contrários. O travamento já havia sido lido como alívio por Michael Saylor, da Strategy, para quem a parada no Senado foi o melhor desfecho possível para o setor.
A proposta vai além disso, e é por isso que a troca de comando pesa de formas diferentes. Ela reparte entre SEC e CFTC a fiscalização dos tokens e diz como uma plataforma de negociação se registra. Quem vende bitcoin e ether em fundo listado já opera sob as regras que existem. Já quem trabalha com os outros tokens, com plataformas de negociação e com finanças descentralizadas depende do texto que travou.
O espaço que sobrou para um acordo
A composição nova do Congresso não elimina a proposta. Mais de 70 democratas votaram a favor do texto na Câmara, o que sustenta a hipótese de um acordo revisado. Os obstáculos apontados por executivos do setor são a remuneração paga por emissores de stablecoins, as proteções ao consumidor e os interesses do presidente Donald Trump no setor.
O precedente mais próximo é a lei das stablecoins. A GENIUS Act passou no Congresso com apoio dos dois partidos, e Zach Pandl, chefe de pesquisa da Grayscale, a cita entre os passos importantes, porque a adoção institucional tem bases mais antigas do que a legislatura que terminou.
O calendário também conta. Os democratas assumem pelo menos 54 das 100 cadeiras do Senado e a maioria na Câmara, e a nova legislatura toma posse em 3 de janeiro. Até lá, a proposta continua parada.
O que muda para cada parte do setor
A distância entre a resposta de terça-feira e o noticiário de quarta aparece no que cada parte do setor precisa de Washington. Na prática, a BlackRock vende produto com custódia, acesso bancário e regra escrita, e diz que o que faltava para esses dois ativos já foi resolvido. O resto da indústria vende o que a lei ainda não classificou.
Essa diferença deixa a BlackRock fora do debate que a eleição reabriu. A empresa não precisa de uma lei nova para lançar o próximo fundo de bitcoin ou de ether. Precisa dela para chegar aos tokens que ainda não têm produto nos Estados Unidos, e é aí que o resultado de terça muda o prazo.
Com o Senado nas mãos dos democratas a partir de janeiro, o caminho da CLARITY Act passa por um texto novo, negociado com uma Casa Branca ainda republicana. Do lado dos dois ativos que já têm fundo, o calendário do Congresso não muda nada. Para o resto do mercado, ele define quando a conversa recomeça.
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