Hougan percorre três cenários e encontra o bitcoin em todos
A Bitwise publicou na quarta-feira um memorando em que o diretor de investimentos da gestora, Matt Hougan, percorre os caminhos possíveis da economia e chega sempre ao mesmo ponto. O texto parte de três cenários para a inteligência artificial, repete o exercício para os juros e conclui que a diferença entre eles muda pouco o resultado de quem compra bitcoin pensando em anos. A amplitude de cenários, escreve ele, é a maior que já viu na carreira.
A provocação vem das conferências, onde a pergunta começa sempre igual, e um dos casos é o que acontece ao bitcoin se a bolha de inteligência artificial estourar.
Um caminho para cada desfecho da IA
No primeiro caminho, a inteligência artificial entrega produtividade em escala. O que depende sobretudo de inteligência fica muito mais barato, de software e remédios a diagnóstico, design e trabalho jurídico, e a economia inteira ganha velocidade. A riqueza que sobra procura o que não pode ser reproduzido, e o bitcoin entra nessa lista. Terreno à beira da água, obra de arte e ouro sobem pela mesma razão, e a moeda de oferta limitada acompanha, porque a abundância não alcança nenhum deles.
O segundo caminho é o oposto. A bolha de inteligência artificial estoura, as ações de crescimento desabam e a recessão leva o bitcoin junto no início.
Quem tomou dinheiro para construir centros de dados não paga o que deve, e seguradoras com bilhões em títulos ligados à inteligência artificial entram em dificuldade. É 2008 outra vez, diz ele. Vem então o corte de juros, a expansão do balanço dos bancos centrais e o resgate. Como essa construção é o maior projeto de infraestrutura já feito nos Estados Unidos, o resgate seria o maior também. Ele estima essa chance perto de 100% pelo peso geopolítico da tecnologia. Com mais dinheiro em circulação, o bitcoin sobe.
O terceiro caminho é sem drama. A economia cresce perto de 3%, o juro fica em 4% e nada muda de forma relevante para o preço do bitcoin.
O que sustenta o preço aqui são as entradas nos fundos negociados em bolsa, a adoção por assessores de investimento e as alocações de tesouraria de empresas e de governos. A dívida pública americana segue crescendo, e a procura por reserva de valor cresce no mesmo ritmo. O avanço depende do espaço que a moeda continua tomando, sem corte de juro nem resgate no caminho.
Três mecanismos explicam a repetição. O crédito cresce mais rápido que a economia real, ou os ativos escassos ficam mais caros, ou tudo segue exatamente igual.
O mesmo exercício vale para os juros. Se o Federal Reserve subir a taxa com força e provocar recessão, os governos tendem a intervir, e o bitcoin acompanha a alta. Se a taxa ficar onde está e a inflação continuar pressionando, a procura por proteção volta para o bitcoin. Se a economia desacelerar sem quebrar, a adoção institucional basta para manter o preço de pé. O percurso muda em cada caso, e a conclusão não.
Ele ressalva que a trajetória tem tropeços. Em vários deles, o bitcoin sofre um trecho ruim antes de o argumento se confirmar no preço.
O que pode interromper o caminho
A referência é o próprio histórico. Em março de 2020, na pandemia, o bitcoin perdeu perto de metade do valor em poucos dias e depois se recuperou, multiplicando por quase 20. O texto também admite o que poderia invalidar a tese sem passar por macroeconomia. A computação quântica ameaça carteiras antigas, uma repressão coordenada entre países pode fechar o setor e o Ocidente pode voltar à disciplina fiscal e à moeda forte. Ele chama esses cenários de improváveis, sem tratá-los como impossíveis.
Peter Schiff escreveu no mesmo dia que não entende o que sustenta o preço do bitcoin com a inflação em alta, e indicou o ouro no lugar.
O atrito aparece no custo de carregar a moeda quando o juro está alto. Um título do Tesouro americano paga acima de 5% ao ano, e o bitcoin não gera renda, o que torna mais caro esperar. A inflação de setembro veio acima do projetado e reforçou a aposta em juro mais alto para a decisão do banco central americano marcada para 28 de outubro.
O desacordo entre os dois é de prazo. O memorando olha o longo prazo, e a crítica de Schiff mede o preço desta semana e o que ainda falta cair.
O que o preço faz no curto prazo
Seis dias antes do memorando, a mesma gestora já havia colocado a moeda na trilha do ouro, com um alvo de US$ 30 trilhões em valor de mercado, o equivalente a quase US$ 1,49 milhão por unidade. O valor de mercado do bitcoin somava US$ 1,62 trilhão, e o preço segue 35,9% abaixo do recorde registrado em outubro do ano passado.
O memorando projeta anos à frente, e o preço responde a cada dado divulgado. Nesta quinta-feira, a moeda valia US$ 80,8 mil por unidade, com 3% de queda nas últimas 24 horas.
⚠️ Aviso importante
As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.