Macro

O consumidor americano espera 3,5% de inflação, e o mercado de títulos cobra 2,3%

A expectativa de inflação dos americanos para os próximos cinco a dez anos chegou a 3,5% em outubro, contra 3,4% em setembro, o segundo mês seguido de alta e o maior nível desde maio. A leitura da pesquisa mensal da Universidade de Michigan, divulgada na sexta-feira, é 1,5 ponto maior que a meta de 2% do Federal Reserve e está acima de toda a faixa em que andou em 2024, entre 2,8% e 3,2%. O comitê de política monetária se reúne nesta terça e quarta-feira, 27 e 28, e o número entra na conta da decisão.

O índice de sentimento que acompanha a mesma pesquisa mal se moveu. Marcou 48,0, contra 48,1 em setembro, e 53,6 em outubro do ano passado. A queda ficou concentrada na avaliação da situação atual, de 50,9 para 46,7, puxada pelas condições de compra de bens duráveis, que recuaram 18% com os juros mais altos. “O poder de compra continua dominando a visão que o consumidor tem da economia”, disse Joanne Hsu, diretora da pesquisa.

A inflação que o consumidor sente é a da energia

O dado de setembro sobre os preços ao consumidor mostra de onde vem a expectativa. O núcleo do índice, sem alimentos e energia, marcou 2,6% em 12 meses, e o indicador cheio veio 1,1 ponto acima, na leitura divulgada no dia 14. A energia subiu 20,4% em um ano. A gasolina, 34,2%.

Para os 12 meses à frente, a expectativa passou de 4,6% para 4,7%, também a maior desde maio, quase o dobro do núcleo de 2,6%. Em fevereiro, antes do começo do conflito com o Irã, estava em 3,4%. As tarifas de 2025 elevaram a expectativa, a trégua nos preços do combustível no meio do ano trouxe alívio, e a alta do petróleo desde então devolveu o movimento. Nas entrevistas, diz Hsu, não há sinal de que os consumidores tratem esses choques como um salto único de preço. Eles esperam que os preços sigam subindo.

O que o relatório de sexta acrescenta

Os dois números de inflação já eram conhecidos na leitura preliminar de outubro. O que veio com o dado final foi um relatório assinado por Hsu, dedicado a uma pergunta específica. As expectativas de longo prazo dos americanos estão fora do intervalo em que ficaram em 2019 e em 2024? A resposta é sim, e o relatório mede a distância por quatro caminhos.

Além da mediana, o percentil 75 das respostas e a fatia de consumidores que esperam inflação de 15% ou mais superam as duas faixas. O intervalo entre os quartis, que a pesquisa usa como medida de incerteza, também está acima. A média das expectativas caiu desde o pico de abril de 2025 e passou todo o ano de 2026 acima da faixa de 2024.

A comparação usa só as entrevistas feitas pela internet, série que começou em 2017 e permite comparar anos com o mesmo método. As amostras têm tamanhos diferentes, 209 respostas por mês em 2019 e mais de 1.000 em 2026. Hsu escreve que os resultados se mantêm quando a referência é a série oficial por telefone, encerrada em 2024, com cerca de 600 entrevistas mensais.

O paralelo que o relatório propõe é com a inflação americana dos anos 1960 a 1980. A cada choque de oferta do período, o Canal de Suez fechado em 1967, o petróleo embargado em 1973 e a revolução no Irã em 1978 e 1979, as expectativas subiam e depois cediam. Nenhuma queda devolveu as expectativas ao nível anterior, e cada novo surto partiu de um piso mais alto. Quando os anos 1980 começaram, os consumidores carregavam 15 anos de surtos repetidos, e baixar a inflação exigiu medidas que a política monetária americana não havia usado até então.

O elo entre expectativa e preço está no consumo. A compra antecipada é o que transforma expectativa em preço. O consumidor que teme o reajuste compra antes, e a soma dessas decisões sustenta a alta. A pesquisa registra gasto agregado resistente apesar da visão negativa sobre a economia, e Hsu aponta que parte desse consumo pode ser justamente essa antecipação. Se for, o trabalho de baixar a inflação fica maior. No relatório, ela escreve que a expectativa elevada pode não se fixar em definitivo e que as entrevistas e o registro histórico indicam que o risco existe.

O mercado de títulos não seguiu o consumidor

Na sexta-feira, o mesmo dia do relatório, o Tesouro americano pagava 5,00% no papel de dez anos. O equivalente protegido pela inflação rendia 2,66%. A diferença entre os dois, que o mercado usa como medida da inflação esperada para a década, ficou em 2,34%.

Esse número não se mexeu em 2026. As médias mensais ficaram entre 2,25% e 2,44%, e outubro está em 2,35%. O que subiu foi o juro real, de 1,82% no início de novembro do ano passado para 2,66% na sexta-feira.

A ata da reunião de 15 e 16 de setembro, publicada em 7 de outubro, mostra que o comitê acompanha as duas fontes. Para os participantes, o que o mercado e as pesquisas mediam nos prazos mais longos seguia compatível com a meta de 2%. Vários notaram que as leituras de curto prazo estavam altas. Alguns manifestaram receio de que, com a inflação acima de 2% há mais de cinco anos, o quadro começasse a contaminar salários e a formação de preços. O juro básico foi elevado de 3,50% a 3,75% para 3,75% a 4,00%, por unanimidade, e muitos defenderam um caminho mais alto como proteção contra uma inflação que não cede.

O caminho até o bitcoin passa pelo juro real

Um estudo de 2023 do FMI mediu esse canal. Os autores identificaram um componente único que explica 80% da variação dos preços de cripto e calcularam que uma alta de 1 ponto percentual no juro americano derruba esse componente em 0,15 desvio-padrão nas duas semanas seguintes. Nas ações, a queda é de 0,1 desvio-padrão. O efeito passa pela disposição de assumir risco e aparece com força só depois de 2020, quando o investidor institucional entrou no mercado.

O bitcoin está do lado do juro real. Era negociado a US$ 80,6 mil por volta do meio-dia desta segunda-feira, praticamente estável nas últimas 24 horas e 4,5% abaixo do preço de 30 dias atrás, enquanto a expectativa de longo prazo do consumidor subia 0,1 ponto no mês. O piso de outubro foi marcado no fim de semana.

Quem comprou o papel de dez anos na sexta-feira recebe 2,66% acima da inflação se o mercado estiver certo, e 1,5% se a expectativa do consumidor se confirmar. A distância entre as duas leituras é de 1,2 ponto, e o comitê de política monetária se reúne nesta terça e quarta-feira com as duas na conta.

⚠️ Aviso importante

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