O BitBond compraria 0,5% da dívida dos Estados Unidos
Andrew Hohns voltou a defender nesta terça-feira o título que quer ver o Tesouro dos Estados Unidos emitir. A ideia é de março do ano passado. O governo venderia US$ 2 trilhões em papéis com cupom de 1% ao ano, usaria 90% do dinheiro nas despesas de sempre e os outros 10%, ou US$ 200 bilhões, para comprar bitcoin. A dívida federal estava em US$ 40,52 trilhões no dia 30 de outubro, no registro diário do próprio Tesouro. Os US$ 200 bilhões equivalem a 0,49% desse total.
Na cotação desta terça-feira, de US$ 77,2 mil por moeda, a compra daria 2,59 milhões de bitcoins, ou 12,9% de tudo o que existe em circulação. É uma quantia grande para o mercado do ativo e quase nada para a dívida que ela promete resolver.
A economia de juros é a parte que fecha
O argumento mais forte da proposta está no cupom. Um papel de 1% ao ano, contra os quase 5% que o Tesouro paga hoje, deixa uma diferença que fica com o governo. A apresentação do Bitcoin Policy Institute calcula US$ 70 bilhões por ano de economia em uma emissão de US$ 2 trilhões, com juros de 4,5%. O Treasury de dez anos estava em 4,96% nesta terça-feira, e na mesma conta a economia subiria para cerca de US$ 79 bilhões. Em menos de três anos, ela paga o bitcoin comprado.
O papel também publica a conta de dez anos, US$ 700 bilhões nominais e US$ 554,4 bilhões em valor presente, e chega a um resultado líquido de US$ 354,4 bilhões depois de descontar os US$ 200 bilhões da compra. Essa parte vale mesmo com o bitcoin parado, sem nenhuma valorização.
O que o cupom de 1% cobra em troca
O desconto não é gratuito. Quem compra o título aceita receber 1% em vez dos quase 5% do papel comum porque fica com uma fatia da valorização do bitcoin no vencimento. O Tesouro troca juro barato hoje por uma conta que só fecha se o ativo subir. Se o bitcoin cair, o governo pagou menos juros e ficou com uma reserva menor, e a economia do cupom não cobre a diferença. É uma aposta vendida como desconto.
O que a reserva teria de render para apagar a dívida
A promessa de reduzir a dívida com a valorização do ativo tem uma conta simples. Para os US$ 200 bilhões virarem os US$ 40,52 trilhões da dívida, a reserva teria de multiplicar por 202. Em 30 anos, isso exige 19,4% ao ano, sem falhar nenhum ano. Em uma janela de 10 anos, seriam 70% ao ano. Cobrir apenas 10% da dívida pede 10,5% ao ano por três décadas.
O bitcoin subiu muito mais do que isso em janelas curtas do passado. A questão é o tamanho da janela que a dívida impõe, e nela o ativo teria de repetir o feito por 30 anos seguidos.
Quase 20 meses e nenhum título emitido
Hohns apresentou o desenho em março do ano passado, em um evento do instituto que assina o documento. Desde então, não há registro de nenhum BitBond emitido pelo Tesouro, e o próprio governo diz que não está comprando. Em agosto do ano passado, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que os Estados Unidos não comprariam bitcoin para a reserva. Patrick Witt, do conselho de ativos digitais da Casa Branca, disse no dia 14 de outubro deste ano que o foco é guardar e contabilizar o que o país já tem, e que aumentar a reserva vem depois, se vier.
O que existe hoje é uma reserva formada só por moedas apreendidas, criada em março de 2025 por uma ordem executiva do presidente, com algo entre 319 mil e 328 mil bitcoins no começo de outubro. A lei que daria base ao programa, o H.R. 8957, foi aprovada na comissão de serviços financeiros da Câmara em 16 de setembro, por 28 votos a 21, e segue sem votação no plenário. Foi a primeira vez que o assunto entrou em um processo legislativo que um próximo presidente não desfaz sozinho.
O nome já saiu do papel em outro lugar, ainda que longe do Tesouro. Em 13 de agosto, a Metaplanet, empresa japonesa que acumula bitcoin, estreou um programa de títulos batizado de BitBonds, com 200 milhões de ienes na primeira leva, o equivalente a US$ 1,3 milhão. É uma emissão corporativa, com risco de empresa, e não tem relação com o Tesouro americano.
Nas contas do documento, US$ 9,3 trilhões da dívida vencem nos 12 meses seguintes. O BitBond quer ocupar exatamente esse espaço. Ali, o cupom de 1% economizaria os US$ 70 bilhões por ano. Enquanto o papel não sai, o Tesouro rola essa dívida perto de 5% e a reserva que existe vale perto de US$ 25 bilhões, 0,06% do que o país deve.
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