Macro

O petróleo devolveu 6% antes de existir acordo com o Irã

Por volta das 11h50 desta segunda-feira, o barril do tipo Brent, referência internacional, era negociado a US$ 106,48, recuo de 6,1% sobre o fechamento de sexta-feira. Já o West Texas Intermediate, referência americana, caía 6,4%, para US$ 97,40. Nas mínimas do dia, os dois chegaram a US$ 105,86 e US$ 97,12. A queda não veio de um aumento de produção nem de um navio que voltou a cruzar o Estreito de Ormuz. Veio de uma frase do presidente iraniano.

O presidente Masoud Pezeshkian afirmou que o aiatolá Mojtaba Khamenei autorizou o governo a conduzir as conversas de paz e que Teerã vai buscar uma saída pela via do diálogo. A declaração foi publicada pela agência estatal ISNA. Na declaração, o mercado leu um sinal de que a negociação pode avançar.

O que sustenta a queda é uma sequência de sinais, nenhum deles um acordo. Negociadores iranianos passaram dias no Catar e deixaram Doha no domingo com um rascunho de proposta em circulação, segundo uma autoridade informada das conversas. O vice-chanceler Kazem Gharibabadi está na capital do Catar trocando mensagens com Washington por intermédio dos mediadores.

A oferta que o Irã apresenta agora promete reabrir o Estreito de Ormuz em dois dias se as exigências forem atendidas, prazo menor do que os sete dias do plano apresentado em setembro. As condições seguem as mesmas. Fim do bloqueio naval, liberação de fundos congelados e alívio de sanções.

Do lado americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, disse no fim de semana que Trump quer encerrar a guerra pela via diplomática e que não há decisão sobre novos ataques. Trump falou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e pediu mais tempo para a diplomacia. Dois dias antes, o mesmo Khamenei havia mandado as forças armadas responder a qualquer ameaça, em qualquer escala, de imediato, com impacto e sem limite geográfico.

O que mudou no preço e o que não mudou na oferta

No mercado físico, o quadro segue o da semana passada. Ataques a navios petroleiros e a refinarias continuam, e o presidente da ADNOC, Sultan Al Jaber, calcula que os estoques mundiais perderam quase um bilhão de barris desde que o conflito travou a passagem pelo Estreito de Ormuz. Sete países da OPEP+ que participam do acordo de produção mantiveram no domingo a meta de dezembro sem mudança. A oferta não subiu. O preço caiu.

No domingo, o Goldman Sachs elevou as projeções e passou a trabalhar com o Brent a US$ 140 em 2027, em um cenário em que a produção do Golfo fique três milhões e meio de barris aquém da média diária de 2025. O relatório listou três gatilhos de alta, os ataques a embarcações, os danos à infraestrutura e a hipótese de o prêmio de risco durar mais do que o mercado espera. Mesmo depois do tombo desta segunda-feira, o barril ainda vale cerca de 60% mais do que há um ano, quando era negociado perto de US$ 65.

Por que o barril mexe com o bitcoin

Para o mercado de cripto, a queda do petróleo interessa pelo efeito na inflação. Barril mais barato alivia o índice de preços, e o mercado americano vinha operando com a aposta de uma alta de juros em dezembro, com a inflação em 3,6% ao ano. Nesta segunda-feira, o ouro subia 1,85% e o S&P 500 ganhava 0,56%, movimento de quem passou a precificar uma política monetária menos dura.

O bitcoin não acompanhou. Era negociado a US$ 77,7 mil, com leve queda no dia, enquanto as ações americanas subiam.

O que decide os próximos dias

A eleição de meio de mandato nos Estados Unidos é nesta terça-feira, e o petróleo passou outubro inteiro embutindo o risco de uma escalada depois da votação. Se a semana passar sem ataque e sem acordo, a pergunta é se o prêmio de risco some aos poucos ou volta inteiro, na formulação da ING. A resposta mexe com o preço do barril, com a inflação de novembro e com a decisão de juros de dezembro.

Até aqui, o que o mercado comprou foi a expectativa. A oferta de reabrir Ormuz em dois dias depende de uma resposta americana que ainda não veio, e o governo iraniano recebeu autorização para conversar. O acordo em si continua sem assinatura, e a queda de 6% já está no preço.

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