Macro

Os EUA criaram 165 mil vagas em outubro, e 40 mil já bastam para o desemprego ficar parado

A economia americana abriu 165 mil postos de trabalho em outubro, quase o triplo dos 65 mil que estavam na mediana das projeções, e o desemprego recuou de 4,2% para 4,1%. O Bureau of Labor Statistics publicou o dado nesta sexta-feira, e o mercado leu o resultado como sinal de força. O número que explica a reação, porém, é bem menor e passou quase despercebido. Quarenta mil.

Essa é a conta de vagas mensais que os Estados Unidos precisam criar hoje apenas para manter o desemprego onde está. Em 2024, o mesmo cálculo ficava perto de 150 mil. O Federal Reserve de St. Louis trabalha com uma faixa entre 15 mil e 87 mil para 2026, e a média das projeções do levantamento Blue Chip fica em 55 mil.

Uma economia que precisa de menos vagas

A imigração líquida deve cair para 570 mil pessoas em 2026, conforme a projeção do Congressional Budget Office, depois de ter chegado a cerca de 3,3 milhões em 2023. A cada mês, mais gente se aposenta e deixa a população que trabalha. Com uma oferta menor de trabalhadores, um volume de contratações que antes indicava estagnação passou a ser suficiente para segurar o desemprego.

As 165 mil vagas de outubro ficam acima da média dos 12 meses anteriores, de 48 mil postos mensais, e cerca de quatro vezes acima do que a economia precisa para manter o desemprego estável. O que mudou foi o tamanho do esforço necessário para chegar ao mesmo resultado.

As revisões fecharam o quadro. Agosto passou de 133 mil para 186 mil vagas e setembro, de 29 mil para 60 mil, o que acrescentou 84 mil postos ao total já informado. Serviços profissionais e empresariais lideraram com 70 mil vagas, a saúde somou 42 mil e o transporte e armazenagem, 25 mil. Na outra ponta, lazer e hospitalidade fechou 13 mil vagas e o comércio atacadista, 9,1 mil.

O relatório anterior, que havia mostrado apenas 29 mil vagas em setembro e derrubado as apostas em juro maior, perdeu parte do efeito com a revisão. O bitcoin chegou a subir com aquele dado fraco e devolveu o movimento no mesmo dia, como mostrou esta reportagem.

O que o número esconde

O emprego em alta não alcançou todo mundo. O tempo médio de procura por trabalho chegou a 27,1 semanas, o maior desde setembro de 2021. São 1,96 milhão de pessoas desempregadas há 27 semanas ou mais, o maior contingente desde dezembro de 2021. Os trabalhadores em tempo parcial por falta de vaga integral aumentaram em 339 mil, para 4,8 milhões. A taxa ampliada de desemprego, que inclui esse grupo e os desalentados, subiu de 7,6% para 7,9%.

Os salários subiram 0,4% no mês e 3,1% em 12 meses, para US$ 38 por hora. A inflação de setembro ficou em 3,7%. O trabalhador médio ganhou menos em termos reais, e a diferença aparece todo mês na conta de quem compra comida e paga aluguel.

O Fed recebeu o dado que pediu

O Federal Reserve manteve a taxa entre 3,75% e 4% em 28 de outubro, com dois votos contrários. Lisa Cook e Beth Hammack queriam a alta imediata de 0,25 ponto. Kevin Warsh, presidente do banco central, disse que decidiria pelo acúmulo de dados das semanas seguintes.

O relatório de sexta forneceu o dado que ele disse que observaria. Ainda na primeira hora depois da divulgação, os contratos futuros de juro passaram a precificar 80% de chance de alta em dezembro, contra cerca de 75% na véspera. A aposta chegou a 85% e recuou para perto de 78% ao longo do dia. Na Polymarket, o contrato para a decisão de 8 e 9 de dezembro marcava 76,5% por volta das 11h30 em Nova York, e a Kalshi, 78%.

O juro mais alto chega ao bitcoin

O mercado de títulos reagiu primeiro. O juro do título de dois anos dos Estados Unidos subiu para 4,52%, o de dez anos para 4,88% e o de 30 anos para 5,27%. O dólar ganhou 0,7% contra as principais moedas, e o índice que mede esse movimento ficou em 102,18.

O bitcoin perdeu os US$ 76 mil. Pouco depois das 16h30 desta sexta-feira, a moeda era negociada a US$ 75,6 mil, depois de ter tocado os US$ 75 mil na mínima da sessão. O preço está cerca de 30% abaixo da máxima das últimas 52 semanas.

Os fundos negociados em bolsa seguiram o mesmo rumo. Na quinta-feira, a saída líquida chegou a US$ 430,2 milhões, com Fidelity e BlackRock na liderança das retiradas. As saídas da semana, até aquele fechamento, somavam US$ 869,8 milhões, e o IBIT, da BlackRock, acumulava cinco sessões seguidas de retiradas, que passam de US$ 1 bilhão desde 30 de outubro. A devolução de recursos já havia aparecido na quarta-feira, quando a moeda rondava os US$ 80 mil, como mostrou esta matéria.

A conta do investidor é direta. Um título de dez anos dos Estados Unidos paga 4,88% ao ano com risco de crédito praticamente nulo. O bitcoin não paga nada e depende de alguém disposto a pagar mais caro depois. Com juro real mais alto, o dinheiro parado em um ativo sem rendimento custa mais.

O Fed persegue 2% de inflação e acompanha o avanço pelo PCE, que ficou em 3,0% no núcleo de agosto. A inflação ao consumidor de outubro sai na terça-feira, dia 10, e será o primeiro teste do que o relatório de emprego mudou. Depois dele vêm a ata da reunião de outubro, em 18 de novembro, e o relatório de emprego de novembro, em 4 de dezembro, quatro dias antes da reunião que define o juro.

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